quarta-feira, 21 de outubro de 2015

O que a bíblia diz sobre mistura de raças?? (parte 01 de 02)


Esse parece ser um tema simples - em que a maioria das pessoas terá uma resposta óbvia (certa ou errada)-, mas que traz consigo muitos fatores que devem ser considerados. Talvez você não conheça a bíblia e se baseia em opiniões negativas de terceiros ou leituras superficiais, quem sabe tenha conhecimento mas faça interpretações equivocadas, ou talvez tenha de fato uma visão coerente com o ensino bíblico; então minha intenção (com minhas limitações) é tentar esclarecer alguns pontos, esperando que isso sirva para edificação e unidade do corpo de Cristo, seja concordando ou discordando dos leitores desse artigo. E claro, havendo objeções contra afirmações feitas aqui, que sejam coerentes, posso analisar e até corrigir alguma coisa se for preciso.

Antes de tentar responder o que o título questiona, é essencial trazer algumas informações históricas e técnicas.

O que caracteriza uma raça??

No passado era comum que o termo "raça" fosse usado para representar a nacionalidade (ex: "raça brasileira") - algo mais próximo do uso atual do termo "etnia" -, mas o grande marco na mudança de uso do termo se deu em 1859 com a publicação do livro "A Origem das Espécies" de Charles Darwin. A partir daí surgia o conceito de "raça" como sendo uma subespécie, ou seja, uma divisão dentro de uma espécie biológica.
Tal definição se aplica de forma generalizada a todos os seres, sendo que como critério para distinção de raças em uma espécie existe a necessidade de diferenciação genética. Isso será mencionado novamente posteriormente.

Biblicamente, o conceito de raças entre os humanos não existe.

Há sim textos que mencionam divisões humanas, se referindo a tribos, povos, línguas (idiomas) e nações, estando então relacionadas a geografia e costumes, mas não a fatores genéticos como determinantes. Exemplos: Gênesis 10:31, Gênesis 35:11Salmos 33:12, Salmos 86:9, Salmos 117:1, Isaías 66:18, Daniel 4:1, Mateus 25:32, Apocalipse 7:9, etc.

Obviamente que gerações existentes nesses ajuntamentos carregam consigo a herança genética de seus ancestrais, mas não são características físicas que os definem de forma imutável. Esses tipos de ajuntamentos, sendo baseados em uma cultura comum, podem ser desfeitos ou modificados. 
A classificação baseada em fatores genéticos impediria, por exemplo, que uma pessoa de pele escura pudesse ser caracterizada como "branca", porém a classificação baseada em fatores culturais poderia ser alterada, por exemplo, se uma pessoa decidisse se submeter a novos costumes e princípios, abandonando aqueles aos quais estava acostumada. Isso é facilmente perceptível, por exemplo, nos casos de pessoas que mudam de religião.

Creio que seja também importante lembrar que a bíblia não trata os seres humanos como mais uma espécie dentro de um "Reino Animal". Essa concepção é 'extra-bíblica' e fortemente impulsionada pela visão darwinista.

A bíblia é clara em separar o ser humano de todas as espécies de seres vivos, pelo fato dele possuir em si a imagem de Deus, tendo o domínio sobre todas elas concedido por Deus (Gênesis 1:26-28). Isso por si só já tornaria a classificação científica no mínimo questionável para um cristão, mas o fato inegável é que não há qualquer base bíblica para distinção de pessoas em 'raças' devido a sua genética, e isso já seria o suficiente para demonstrar que a bíblia não apoia qualquer tipo de "supremacia" firmada em tais critérios. Além do mais, mesmo com tantas diferenças físicas encontradas na humanidade, somos todos descendentes de um mesmo ancestral (Atos 17:26I Coríntios 15:45), somos todos "parentes". Se houvesse algo como "raças" que nos distinguem, todas elas teriam surgido de uma única.

Bom, voltando então àquilo que eu havia mencionado sobre a diferenciação genética dentro das espécies como critério para distinção de raças, no ser humano ela pode ser considerada porcentualmente ínfima, e portanto o uso do termo "raça" para se fazer essa distinção entre humanos tem sido abandonado tanto pela biologia em si como pela antropologia (que se apoiou na primeira). Desta forma, a insistência (errada) nesse conceito é apenas social, e de interesse quase que unicamente político.

Sem "raças" pode haver "racismo"??


Como eu disse no começo, talvez você tenha chegado a esse artigo com uma visão preconceituosa sobre o cristianismo, achando que de alguma forma ele incentiva algum tipo de opressão a alguma raça específica.. Mas como seria possível que a cosmovisão cristã promovesse tal coisa se ela sequer faz essa distinção entre seres humanos?? O artigo poderia ser finalizado aqui, pois a pergunta do título perde o sentido sem a existência real de raças, mas vou além..

A minha intenção não é, ingenua nem hipocritamente, ignorar que houve e há sim cristãos professos que praticam esse pecado de discriminar e fazer julgamentos morais se baseando em características físicas, mas o que quero ressaltar é que a bíblia não dá qualquer amparo para isso. E mais do que isso, quero mostrar que tais práticas foram disseminados pelo evolucionismo..

Como disse o importante evolucionista Stephen Jay Gould:

Talvez os argumentos biológicos para o racismo fossem comuns antes de 1859, mas eles aumentaram em proporções de magnitude depois da aceitação da teoria evolucionária. [1]

Essa afirmação se justifica no fato dessa teoria defender que as diferentes 'raças' de pessoas evoluíram em diferentes tempos e intensidades, e por isso mesmo alguns estariam mais próximos dos ancestrais símios (primatas).

Com base nisso, alguns consideraram os aborígenes australianos, por exemplo, uma raça inferior que faziam o elo entre a humanidade e esses ancestrais mais primitivos. Ernst Heinrich Philipp August Haeckel, um biólogo, naturalista alemão, filósofo, médico, professor e artista que ajudou a popularizar o trabalho de Charles Darwin e um dos grandes expoentes do cientismo positivista, afirmou:

No mais baixo estágio de desenvolvimento mental humano estão os australianos, algumas tribos da Polinésia e os bosquímanos, hotentotes e algumas tribos de negros. No entanto, talvez nada seja mais notável em relação a isso que o fato de algumas das tribos mais incivilizadas do sul da Ásia e leste da África não terem quaisquer traços das fundações primeiras de toda civilização humana, da vida familiar e do casamento. Eles vivem juntos em bandos, como os macacos. [2]

"Essai sur l'inégalité des races humaines"
é um ensaio do conde Arthur de Gobineau
publicado parcialmente em 1853,
visando estabelecer as supostas diferenças
que separam as raças humanas.
Uma edição completa foi publicada
pela primeira vez em 1855.
Está claro que, apesar de haver uma tentativa desleal de se atrelar o racismo ao cristianismo devido a essa prática existir e ser recorrente em sociedades ditas cristãs, é na teoria evolucionista que se encontram bases para se desenvolver ideias racistas. O Iluminismo estava em pleno andamento no século XVIII e muitos esforços foram feitos para assegurar um entendimento científico de raça. Biólogos, adotaram a classificação de raças e assim como os seres humanos, os animais foram arranjados em hierarquias sistemáticas. Foram feitas distinções entre raças "superiores" e "inferiores", e europeus foram colocados no topo da hierarquia de raças. [3]

“O pensamento científico do Iluminismo era uma pré-condição para o crescimento de um racismo moderno baseado em tipologia física.” [4]  Carl Linnaeus, um naturalista sueco, considerava Europeus, Asiáticos, Índios Americanos e Africanos diferentes variedades de humanidade. [5]  Ele repudiou negros como “maliciosos, indolentes, negligentes. (…) Governados pelo capricho,” enquanto elogiou os Europeus como “perspicazes, inventivos. (…) Governados por leis.” [6] 

Johann Friedrich Blumenbach, que produziu a "mais autoritativa classificação das raças” do Iluminismo, admitia os Caucasianos como a primeira raça humana. Para ele todas as outras raças, "se desviaram ou degeneraram", conforme escreve George M. Fredrickson. [7]

A partir desses pressupostos evolucionistas racistas veio a surgiu o conceito de Eugenia, desenvolvida pelo próprio primo de Charles Darwin, o antropólogo, meteorologista, matemático e estatístico Francis Galton. O termo significa "bem nascido" [8], definido por Galton como "o estudo dos agentes sob o controle social que podem melhorar ou empobrecer as qualidades raciais das futuras gerações seja física ou mentalmente".
Tomando por base a "seleção natural" apresentada por Darwin, Galton desenvolveu então na prática um conceito de "seleção artificial". Ele acreditava fortemente na eficiência dos fatores genéticos na determinação dos costumes das pessoas, e não as interações no ambiente em que viviam, e defendia então que os casamentos fossem feitos entre pessoas com as características. A ideia era multiplicar as descendências de pessoas consideradas mais cultas e capacitadas, usando "reprodução seletiva", com o intuito de melhorar a qualidade da sociedade e inclusive almejando que a "qualidade" dos nascidos fosse evoluindo... Ou seja, uma visão extremamente preconceituosa e que atribuía a capacidade das pessoas exclusivamente ao determinismo genético, assim como o caráter.
Isso foi considerado "eugenia positiva" pois tinha 'apenas' o intuito de perpetuar a descendência das pessoas consideradas mais avançadas, de certa forma um uso da liberdade mesmo que firmada em preconceitos tolos. Mas também existe o conceito de "eugenia negativa", se referindo a medidas que impeçam as raças consideradas mais atrasadas de se proliferarem. Essas medidas incluem esterilização e até descarte de pessoas taxadas arbitrariamente de inferiores.
Creio que o exemplo mais conhecido da aplicação dessa atrocidade seja o que ocorreu no nazismo, em que seus adeptos defendiam a ideia de serem participantes de uma raça superior (ariana) e a partir daí visaram dominar outros povos e eliminar ou oprimir pessoas com base nesses critérios genéticos.

Podemos ver que a tentativa de aplicação dos ensinos darwinistas na sociedade de uma forma artificial é extremamente desastroso. Se de fato houvesse distinções genéticas que determinassem o caráter das pessoas, isso seria julgado por quem ou mediante qual padrão??

Essa discriminação baseada em genética se refletia socialmente, sendo abraçada, por exemplo, por Friedrich Engels e Karl Marx, que além de (e/ou devido a) terem uma visão de mundo totalmente deturpada, demonstravam abertamente preconceito em relação a negros.

Em uma carta de julho de 1862 para Engels, em referência a Ferdinand Lassalle, seu competidor político socialista, Marx escreveu: 
“…é agora completamente evidente para mim que, como provam a formação de seu crânio e seus cabelos, ele descende dos negros do Egito, presumindo que sua mãe ou avó não tinha cruzado com um preto. Ora, essa união de judaísmo e germanismo com uma substância negra básica deve produzir um produto peculiar. A impertinência do camarada é também característica dos pretos”. [9]
Engels também tinha muitas das convicções filosóficas raciais de Marx. Em 1887, Paul Lafargue, que era o genro de Marx, havia se candidatado a uma vaga num distrito de Paris. Em uma carta direcionada à esposa de Paul, escrita no mês de abril, Engels disse:
“Estando em sua qualidade como preto, um grau mais próximo do resto do reino animal do que o resto de nós, ele é sem dúvida alguma o representante mais adequado desse distrito”. [10]

O mais intrigante é pensarmos que hoje em dia muitos defensores de sistemas de cotas para negros são "fãs" de homens como esses aí.. Aliás, já foi demonstrado que essa "rotulação" das pessoas em raças não tem base bíblica e é um fruto do evolucionismo impregnado na sociedade, mas que não é mais defendida cientificamente, então fica claro que esse uso político sofre com a ausência de bases.
Os defensores de cotas, geralmente apelam para uma suposta "dívida histórica" de brancos para com negros, e se apoiam nessa distinção extremamente subjetiva com base na tonalidade da pele para requerem uma suposta reparação.. Ou seja, defendem uma espécie de 'determinismo genético' que transforma automaticamente negros em vítimas e brancos em opressores.

Um exemplo simples de como isso é bizarro é o caso das irmãs Maria Aylmer e Lucy Aylmer, que mesmo sendo gêmeas bivitelinas, são tão diferentes a ponto de uma ser negra e outra ruiva.. rs


Nesse caso, alguma delas tem que ser considerada superior à outra, ou alguma delas está fadada a oprimir (e por isso deve ser contida) enquanto a outra será uma eterna vítima que precisa ser ajudada??

Obviamente que não, mas é esse tipo de dilema que aparece quando se faz esse tipo de julgamento apenas observando as características físicas.

Para falar sobre esse tema como se deve seria necessário mais espaço, e posteriormente pretendo escrever um texto só sobre isso, mas o que fica claro de qualquer forma é que, querendo ou não, esses defensores de cotas na verdade pregam o racismo. Todos esses que lutam por "restituições" históricas de um grupo a outro, mesmo quando os indivíduos deste não cometeram diretamente nenhum mal ou dano ao outro, estão fomentando essa divisão e sem qualquer base científica para isso.
Afinal, sem "raças" como podem haver "cotas raciais"??


Ou seja, está demonstrado que a bíblia não dá qualquer base para que se faça julgamentos morais tomando por base o conceito social racial. Mas o que ela fala então da mistura entre povos e etnias diferentes??



[1] S. J. Gould, Ontongeny and Phylogeny, Cambridge, Mass,: Belknap-Harvad Press, 1977, p. 127,128.
[2] E. Haeckel, The History of Creation, 1876, p. 363. 
[3] Louis L. Snyder, “Racialism: Its Meaning and History,” in Ellis Cashmore and James Jennings, eds., Racism: Essential Readings (London: SAGE Publications, 2001), 92.
[4 e 5] George M. Fredrickson, Racism: A Short History (Princeton, NJ: Princeton University Press, 2002), 56.
[6] Emmanuel Chukwudi Eze, ed., Race and the Enlightenment: A Reader (Cambridge, Mass., 1997), 13.  Citado em Fredrickson, Racism: A Short History, 56.
[7] Fredrickson, Racism: A Short History, 57.
[8] Galton, Francis. Inquiries into human faculty and its development. New York: AMS Press, 1973.
[9] Carta de Karl Marx para Friedrich Engels, de julho de 1862.
[10]  Marx & Engels Werke vol. 36, 1967, p. 645.




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