segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

Devo ficar ou devo sair? (por pr. Albert Mohler)


Quando um cristão evangélico deve se retirar de uma igreja? Esta é uma pergunta frequente em nossos dias, e denuncia mais do que um problema no cristianismo contemporâneo. Muitos membros de igrejas têm se tornado clientes. O conceito bíblico de eclesiologia tem cedido lugar a uma forma de consumismo em que os indivíduos, tais quais clientes comparando preços e qualidade, saem em busca da igreja que mais combina com seu gosto naquele momento. A questão pode ser concernente à adoração e à música, aos relacionamentos, ao ensino, ou a um número incontável de outras coisas. No entanto, o padrão é o mesmo – as pessoas se sentem à vontade ao trocar uma congregação por outra por praticamente qualquer razão, ou mesmo por nenhuma razão .

Estes clientes violam a integridade da igreja e o significado da membresia eclesiástica. Quando os membros saem por razões insuficientes, a comunhão da igreja é quebrada, seu testemunho é enfraquecido, e a paz e a unidade da congregação são sacrificadas. Tragicamente, uma compreensão superficial de membresia eclesiástica enfraquece o nosso testemunho do evangelho de Cristo.

Não há desculpas para esse fenômeno. Nós não temos o direito de sair de uma igreja por causa de nossas preferências musicais, nosso gosto pessoal, ou mesmo porque a programação não atende às expectativas. Estas controvérsias ou inquietações devem levar o cristão fiel a considerar como ele poderia ser útil para encontrar e criar uma maneira melhor de resolvê-las, ao invés de servirem para que ele as use como desculpa para sair.

Os cristãos não podem olhar para esta questão como meramente uma questão de consumismo. Somos chamados a amar a igreja e orar por sua paz e unidade, e não para procurar uma oportunidade de mudar para outra congregação.

Há momentos, no entanto, quando é correto que deixemos uma congregação ou denominação. Mas em tal caso, a questão não é gosto, e sim teologia.
Nenhuma congregação ou denominação é perfeita, e conversas doutrinárias são frequentemente um sinal de saúde congregacional. A questão da separação de uma igreja deve surgir apenas quando um problema de urgente importância teológica está em jogo – quando ficar violaria a integridade e testemunho do evangelho.

No final, a única razão suficiente para a saída de uma igreja é teológica. Um cristão fiel deve deixar uma congregação ou denominação quando aquele corpo obstinadamente rejeita esforços de correção doutrinária acerca de uma questão de significância verdadeira.

Dito isto, a dificuldade vem nos termos desta afirmação. A história da igreja cristã inclui algumas emocionantes e incentivadoras quantias de congregações, denominações e instituições cristãs que, uma vez comprometidas com doutrinas aberrantes ou heresia completa, foram posteriormente convencidas de seu erro e corrigidas pela Bíblia.

Infelizmente, há uma lista muito maior de igrejas e denominações que se recusaram e rejeitaram todas as tentativas de correção. Uma vez comprometidas com uma trajetória de erro doutrinário e heresia, muitas igrejas são completamente resistentes à correção pela Palavra de Deus.

A primeira difícil questão que enfrentamos consiste em definir que tipo de problema doutrinário merece esta urgência. Isso requer uma estrutura de cuidadosa análise teológica enraizada a uma séria consideração de quais são os problemas de maior importância – falsos ensinos e crenças que, se obstinadamente mantidos, requerem separação.

Os cristãos de hoje enfrentam a difícil tarefa de definir estrategicamente quais doutrinas cristãs e problemas teológicos devem receber máxima prioridade em termos do nosso contexto contemporâneo. Isso se aplica tanto à defesa pública do cristianismo em face do desafio secular quanto à responsabilidade interna de lidar com divergências doutrinárias. Considerar questões doutrinárias em termos de sua relativa importância não é uma tarefa fácil, mas é uma tarefa que demanda seriedade e maturidade teológica. A Verdade de Deus deve ser defendida em todos os pontos e em todos os detalhes, mas os cristãos responsáveis devem determinar quais questões merecem atenção de primeira linha em um momento de crise teológica.

Há muito que tenho defendido o que eu chamo de uma estrutura de triagem teológica. A primeira vez que encontrei este conceito foi em uma sala de emergência do hospital. Lá se observa o processo de triagem médica. Este processo permite que o pessoal treinado faça uma rápida avaliação da relativa urgência médica. Dado o caos de uma área de recepção da emergência, alguém deve ser provido de habilidade médica para que possa fazer uma determinação imediata de prioridade. Quais pacientes devem ser encaminhados rapidamente para a cirurgia? Quais pacientes podem esperar por um exame menos urgente? O pessoal médico não pode esquivar-se de fazer estas perguntas e de assumir a responsabilidade de dar aos pacientes com necessidades mais críticas o topo da prioridade em termos de tratamento.

A palavra ‘triagem’ vem da palavra francesa ‘trier’, que significa “classificar”. A mesma norma que põe ordem à frenética sala de emergência também pode oferecer grande ajuda para os cristãos que defendem a verdade na época atual. Temos que aprender a classificar questões teológicas e doutrinárias como parte de nossa responsabilidade cristã.

Com isto em mente, gostaria de sugerir três diferentes níveis de urgência teológica, cada um correspondendo a um conjunto de questões e prioridades teológicas encontradas nos atuais debates doutrinários.

O primeiro nível de questões teológicas abrangeria as doutrinas mais centrais e essenciais para a fé cristã. Incluídas entre estas doutrinas mais importantes estariam doutrinas tais como a Trindade, a plena divindade e humanidade de Jesus Cristo, a justificação pela fé somente, e a autoridade da Escritura. Estas doutrinas de primeira ordem representam as verdades fundamentais da fé cristã, e uma negação dessas doutrinas representa nada menos do que uma consequente negação do próprio Cristianismo.

Sem a afirmação da Trindade, não há verdadeiro cristianismo. Sem a afirmação da plena divindade e humanidade de Cristo, não há evangelho. Sem a afirmação de doutrinas essenciais ao evangelho de Cristo, não há mensagem de salvação no cristianismo.

Estas doutrinas de primeira ordem incluiriam o nascimento virginal de Cristo, a Sua ressurreição física, e outras doutrinas claramente ensinadas na Bíblia e necessárias para o entendimento de quem é Cristo e do que Sua expiação realizou. Assim, a justificação pela fé somente é também corretamente classificada nesta categoria de primeira ordem, pois sem esta verdade a igreja cai.

O conjunto de doutrinas de segunda ordem se distingue do conjunto de primeira ordem pelo fato de que os fiéis cristãos podem vir a discordar sobre as questões de segunda ordem, embora esta discordância crie fronteiras significativas entre os crentes. Quando os cristãos se organizam em congregações e em moldes denominacionais, esses limites se tornam evidentes.

Questões de segunda ordem incluiriam o significado e o modo do batismo. Batistas e presbiterianos, por exemplo, fervorosamente discordam sobre o mais básico entendimento do batismo cristão. A prática do batismo infantil é inconcebível para a mente batista, enquanto presbiterianos conectam o batismo infantil com a sua mais básica compreensão da aliança. Permanecendo unidos a respeito das doutrinas de primeira ordem, batistas e presbiterianos ansiosamente reconhecem uns aos outros como cristãos fiéis, mas reconhecem que o desacordo sobre questões de segunda importância impede a comunhão dentro da mesma congregação ou denominação.

Questões de primeira ordem determinam a identidade e a integridade cristãs. Questões de segunda ordem determinam a eclesiologia.

Questões de terceira ordem são doutrinas sobre as quais os cristãos podem discordar e permanecer em comunhão íntima, mesmo dentro das congregações locais. Gostaria de colocar a maioria dos debates sobre a escatologia, por exemplo, nesta categoria. Os cristãos que afirmam o corporal, histórico e vitorioso retorno do Senhor Jesus Cristo podem divergir sobre o período e a sequencia deste evento sem que haja ruptura da comunhão da igreja. Os cristãos podem se encontrar em desacordo sobre um variado número de questões relacionadas com a interpretação de textos difíceis ou com a compreensão de pontos de comum discordância. Desta forma, permanecendo unidos a respeito de questões de mais urgente importância, os crentes são capazes de aceitar um ao outro sem transgressão quando as questões de terceira ordem estão em disputa.

Os cristãos nunca devem deixar uma igreja devido a questões de terceira ordem, muito menos devido a questões que nem sequer alcançam esta importância. Os crentes em Cristo são obrigados a ver todas as questões da verdade bíblica como incluídas na nossa mordomia do evangelho, mas o Novo Testamento deixa claro que, enquanto a unidade quanto aos princípios básicos é vital, a diversidade quanto a outras questões não precisa ameaçar a unidade da igreja.

Em nossos dias, problemas como a homossexualidade e as mulheres no pastorado representam questões que prejudicam nossas tentativas de triagem. A rejeição da autoridade da Bíblia quanto a uma questão como a homossexualidade é um problema teológico – e não meramente uma controvérsia moral. Nenhuma igreja pode permanecer dividida sobre esta questão, e nenhum crente fiel deve permanecer em uma igreja que se recusa a se submeter à Palavra de Deus. Uma igreja que ordena mulheres ao pastorado pode ser ortodoxa em muitas outras questões, mas sobre esta questão ela se coloca contra a Escritura.

Em muitas igrejas e denominações, esta recusa obstinada em receber correção pela Escritura submete crentes fiéis a uma escolha difícil, mas permanecer em uma igreja que obstinadamente recusa correção não é uma opção. Os esforços por “renovação” em muitas destas igrejas têm sido constantemente rejeitados. Chega o momento em que recusar sair de uma igreja se torna cumplicidade na heresia.

Estas são perguntas difíceis de fato, mas o crente sério deve usar extremo cuidado ao considerar quando ficar e quando sair. No final, o problema da decisão deve ser verdadeiro, e a decisão deve ser tomada com oração, quebrantamento, e determinação.

Extraído de:
http://projeto-reino.blogspot.com.br/2012_07_01_archive.html


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