quarta-feira, 4 de maio de 2016

O BATISMO INFANTIL: Objeções e Respostas (por João Calvino) - parte 05 de 06

10º. Os apóstolos não ministraram o Batismo infantil

Depois, apelando para a prática dos apóstolos, os tais querem mostrar que só os adultos estão aptos para receber o Batismo. Eles citam o apóstolo Pedro e dizem que, sendo ele interrogado pelos que se inclinavam a converter-se ao Senhor sobre o que deveriam fazer, respondeu-lhes (Atos 2.37,38): “Arrependei-vos, e cada um de vós seja batizado em nome de Jesus Cristo para remissão dos vossos pecados”.

Igualmente, quando o eunuco perguntou a Filipe se não era lícito que ele fosse batizado, Filipe lhe respondeu: “É lícito, se crês de todo o coração” (Atos 8.36,37). Dessas palavras os nossos oponentes concluem que o Batismo foi instituído somente para os que têm fé e arrependimento. 

Entretanto, se é para seguir esse procedimento, note-se que, pela primeira passagem, bastaria o arrependimento, uma vez que não se faz menção alguma da fé; e, pela segunda, que a fé seria suficiente, visto que nela não se pede o arrependimento.

Eles me dirão que uma passagem presta auxílio à outra e que, por isso, é preciso juntá-las para obter-se bom entendimento. Ao que respondemos dizendo que, semelhantemente, para haver coerência, é necessário reunir as outras passagens que podem ajudar-nos a eliminar essa dificuldade, pois muitas vezes o entendimento do sentido correto da Escritura depende de elementos circunstanciais, ou seja, do contexto.

Vemos que as pessoas que perguntaram a Pedro o que deveriam fazer para aderir ao Senhor eram pessoas que já tinham chegado à idade da razão. De tais pessoas dizemos que só devem ser batizadas depois que derem testemunho de sua fé e arrependimento, quanto seja possível aos seres humanos. Mas os pequeninos gerados por cristãos devem ser colocados noutra categoria. E para que se veja que assim é, não forjamos argumentos seguindo o que bem agrada ao nosso cérebro, mas a própria Escritura nos dá segurança e certeza para a defesa dessa distinção.

Pois vemos que se alguém desejava entrar nas fileiras do povo de Israel para servir ao Deus vivo, era necessário que, antes de receber a Circuncisão, aceitasse a Lei e fosse instruído na doutrina da aliança que o Senhor tinha feito com o Seu povo. Isso porque o candidato não pertencia à nação judaica, para a qual esse sacramento havia sido instituído.

Com o próprio Abraão foi assim, porque o Senhor não começou a agir para com ele pela Circuncisão, sem que ele soubesse por quê, mas, sim, começou dando-lhe instrução sobre a aliança, a qual Ele queria que fosse confirmada pela Circuncisão. Só depois que Abraão creu na promessa é que Deus lhe ordenou o sacramento. Consideremos, porém: Por que foi que Abraão só recebeu o sinal depois que passou a ter fé, e Isaque, seu filho, o recebeu sem nada entender?

Porque estando o homem na idade da razão, não sendo ainda participante da aliança do Senhor, para passar a fazer parte dela deve primeiro saber em que ela consiste. Por outro lado, o filho pequeno gerado por esse homem, sendo herdeiro da aliança por sucessão, como o comporta a promessa feita a seu pai, por direito é apto a receber o sinal, sem contudo entender a sua significação.

Ou, para dizê-lo resumidamente e com maior clareza – como o filhinho do crente participa da aliança sem entendê-la, não deve ser privado do respectivo sinal, pois é apto para recebê-lo sem que se exija dele que o entenda. Por essa razão o Senhor disse que os filhos pertencentes à linhagem de Israel tinham sido gerados para Ele, eram Seus filhos, considerando-se Ele o Pai de todos os filhos daqueles aos quais tinha prometido ser o seu Deus e o Deus da sua descendência (Ezequiel 16.20,21; 23.37).

E os descrentes, nascidos de pais descrentes, enquanto não conhecessem a Deus, isto é, enquanto não cressem nele, eram estranhos à aliança. Portanto, não admira que não lhes fosse ministrado o sinal, porque seria um símbolo falso e vão. Por isso o apóstolo afirma que os gentios, enquanto estavam na idolatria, estavam sem testamento e sem aliança.


Sumário desta parte

Toda essa questão agora parece bastante clara. Resumindo: Os adultos que se disponham a converter-se ao Senhor Jesus Cristo não devem ser admitidos ao Batismo se não tiverem fé e arrependimento, visto que só pela fé e pelo arrependimento se pode ter acesso à aliança, a qual é simbolizada e selada pelo Batismo.  Mas os filhinhos dos cristãos, aos quais a aliança pertence por direito de herança, em virtude da promessa, por esta razão, e só por esta, são idôneos para admissão ao Batismo. A mesma coisa se deve dizer sobre aqueles que confessavam os seus pecados e ofensas para serem batizados por João, pois neles vemos um exemplo que devemos seguir. Porque, se viesse algum judeu, ou turco, ou qualquer pagão, não deveríamos aplicar-lhe o Batismo antes de instruí-lo devidamente e de obter sua confissão de uma forma que nos parecesse satisfatória. Por isso, embora Abraão não tenha sido circuncidado senão depois de receber a devida instrução, isso não vem em detrimento do fato de que, depois dele, menininhos fosse circuncidados sem receberem instrução enquanto não fossem capazes de recebê-la.


11º. João 3.5 fala da água como condição para que o pecador possa entrar no reino de Deus, igualando-a à regeneração

Mas, querendo mostrar que a natureza do Batismo é tal que requer uma regeneração a ele presente, citam a seu favor o que se lê no capítulo três de João“Quem não nascer da água e do Espírito não pode entrar no reino de Deus”. Aí está, dizem eles, como o Senhor chama o Batismo de regeneração. Dessa maneira, visto que as criancinhas não podem receber a regeneração, como julgá-las idôneas para receberem o Batismo, que não subsiste sem aquela?

Em primeiro lugar, dá para aguentar a maneira como eles torcem as Escrituras com suas falsas interpretações? Porque nessa passagem o Senhor Jesus Cristo não faz menção alguma do Batismo, mas utiliza uma transposição, ou seja, uma figura tomada de coisas carnais para com ela indicar coisas espirituais e celestes. Tanto assim que logo depois Ele diz a Nicodemos, com quem estava conversando, que só havia tocado em coisas terrenas, pois, embora Seu propósito fosse tratar de realidades espirituais, contudo as simplificou e tratou delas como se fossem carnais ou terrenas, para ajustar-se à rudeza e à pequena capacidade do seu interlocutor.

Tendo, então, mostrado que o homem carnal por natureza tende às coisas da terra e não aspira ao céu, ao referir-se ao novo nascimento da água e do Espírito Ele quer dizer que é necessário que, reconhecendo e renunciando à sua corrupção, o homem seja reformado ou renovado, passando a ter uma natureza superior, mais fina e sublime. Ademais, há outra razão para repudiar a explicação que eles dão, pois, a ser verdadeira, todos os que não receberem o Batismo estarão excluídos do reino de Deus. Suponhamos que fosse legitimamente sustentável a sua opinião de que não se deve batizar os pequeninos, que diriam eles se um jovem, adequadamente instruído em nossa fé, morresse sem ter tido ocasião de ser batizado? Porquanto o Senhor diz: “Em verdade, em verdade vos digo: quem ouve a minha palavra e crê naquele que me enviou tem a vida eterna, não entra em condenação, mas passou da morte para a vida” (João 5.24).Em parte alguma Ele condena os que não foram batizados. Que ninguém entenda que com isso menosprezamos o Batismo, como se pudéssemos negligenciá-lo. Só quero mostrar que o Batismo não é tão necessário que não se poderia escusar quem não o tivesse recebido por força de algum impedimento legítimo. Já, por outro lado, segundo a explicação dada pelos nossos opositores, todos os que não fossem batizados, sem exceção, estariam condenados, ainda que tivessem a fé pela qual temos Jesus Cristo. E não somente isso, mas também eles condenam e os pequeninos, aos quais eles negam o Batismo que, dizem eles, é necessário para a salvação. Agora, como podem eles harmonizar o que dizem com a Palavra de Cristo, segundo a qual o reino celestial pertence aos pequeninos! E ainda que lhes concedêssemos tudo quanto exigem, vê-se quão falsa é a sua ilação, resultante de um raciocínio estulto e falso, que os leva a afirmar que as criancinhas não podem ser regeneradas, pois, conforme a dedução amplamente exposta acima, sem a regeneração ninguém entra no reino de Deus, nem grandes nem pequenos. Ora, se há aqueles que morrem na mais tenra infância, os quais são herdeiros do reino de Deus, claro está que eles foram regenerados antes do seu passamento.

Depois, tendo em vista o mesmo objetivo, eles se armam com os dizeres do apóstolo Pedro (1 Pedro 3.20,21), segundo os quais o Batismo, correspondendo à figura da arca de Noé, nos é dado para a salvação, “não sendo a remoção da imundícia da carne, mas a indagação de uma boa consciência para com Deus, por meio da ressurreição de Jesus Cristo”. Se a realidade significada pelo Batismo é um atestado de boa consciência diante de Deus, se esta lhe faltar, que restará, senão uma coisa vã e de importância nula? Por isso, se as criancinhas não podem ter boa consciência, seu Batismo se esvai como fumaça. Nisso eles repetem o erro de sempre, pois querem que necessariamente, sem nenhuma exceção, a realidade significada preceda ao respectivo sinal. Erro que já refutamos mais que suficientemente. Porque a Circuncisão, aplicada aos pequeninos, não deixava de ser um sacramento da justiça da fé, sinal e símbolo do arrependimento e da regeneração. Se estas coisas fossem incompatíveis, Deus não a teria instituído. Mas, ensinando-nos que a substância da Circuncisão faz dela justamente o sacramento acima descrito, e atribuindo-o aos pequeninos, Ele mostra que, no tocante aos referidos pontos, é aplicado a eles com vista ao seu futuro. Portanto, a realidade que devemos considerar presente no Batismo, quando este é ministrado aos pequeninos, é que ele é um atestado da sua salvação, selando e confirmando a aliança de Deus neles. O restante das coisas simbolizadas terá lugar no tempo que o Senhor tiver determinado para lhes dar o necessário conhecimento.


12º. A instituição do Batismo, segundo Mateus e Marcos, citada como argumento contra o Batismo infantil

Sobretudo, para fabricar o seu grande escudo e construir a sua principal fortaleza para defesa da sua opinião, os nossos opositores citam a instituição original do Batismo, quando foi ordenado pela primeira vez, o que eles dizem que foi feito pelas palavras registradas no último capítulo de Mateus: “Portanto, vão e façam discípulos de todas as nações, batizando-os em nome do Pai e do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a obedecer a tudo o que eu lhes ordenei”A isso eles acrescentam a passagem do último capítulo de Marcos: “Quem crer e for batizado será salvo” (Mateus 28.19,20; Marcos 16.16). Vejam, dizem eles, como o nosso Senhor ordena que se dê instrução antes de batizar, e como Ele mostra que a fé deve preceder ao Batismo. E acrescentam: De fato o Senhor demonstrou isso com o Seu exemplo, pois Ele não foi batizado antes dos trinta anos de idade.

Nesse ponto eles erram em muitos aspectos. Porque é um erro por demais evidente dizer que o Batismo foi ordenado pela primeira vez na ocasião a que se referem os textos citados, visto que durante todo o tempo da pregação de Jesus Cristo era vigente a sua prática. Então, se a instituição deve preceder à prática, e se o Batismo esteve em uso por tanto tempo, como dizer que a sua instituição primeira, original, ocorreu no tempo alegado por nossos oponentes? É, pois, vão e inútil o esforço que eles fazem para apoiar-se na primeira ordenação para com isso limitar a doutrina do Batismo precisamente nessas passagens.

Todavia, deixando de lado esse erro, consideremos bem que força têm os seus argumentos. Ora, se fosse necessário empregar tergiversações ou evasivas, não seria nada difícil escapar deles. Sim, pois, uma vez que eles se fundam tão estritamente na ordem e na disposição das palavras, pretendendo que é preciso primeiro instruir antes de batizar, e crer antes de receber o Batismo, alegando que está escrito, “fazendo discípulos” (instruindo) e depois, “batizando-os”; e na outra passagem, “quem crer e for batizado”, pela mesma razão é fácil replicar-lhes que é necessário batizar antes de ensinar a guardar todas as coisas que Jesus ordenou, pois a passagem diz: “Batizando-os...; ensinando-os a guardar todas as coisas que vos tenho ordenado”. E que seria se tomássemos a explicação que eles dão da passagem de João citada anteriormente, na qual eles entendem como se referindo ao Batismo o que é dito com referência ao novo nascimento da água? Pois, sobre o seu próprio argumento provamos que o Batismo deveria preceder à regeneração espiritual, porquanto é mencionado antes desta. Porque o texto não diz, “Quem não nascer do Espírito e da água...”, mas, “Quem não nascer da água e do Espírito...”. Já com isso o argumento deles dá mostras de grande abatimento.


Do argumento fraco apoiado em alheio argumento fraco, passamos a argumentos mais fortes

Todavia, não nos detemos aqui, uma vez que temos resposta para defender a verdade de maneira muito mais certeira e mais sólida. O que se deve notar é que o principal mandamento que na passagem em foco o Senhor dá aos Seus apóstolos é que anunciem o Evangelho, ao qual Ele acrescenta o serviço ministerial de batizar, mas como algo subordinado à sua comissão ou incumbência principal. Logo, aqui não se fala em Batismo, a não ser na medida em que sua prática vem junto com o ensino doutrinário e com a pregação. Pode-se entender melhor isso fazendo-se uma exposição dedutiva mais longa.

O Senhor envia então os Seus apóstolos para instruírem os homens de todas as nações da terra. Que homens? Certamente não pensa senão nos que são aptos para receber doutrina. Então diz Ele que, depois de haverem sido instruídos, devem ser batizados. E, prosseguindo na declaração do Seu propósito, Ele afirma que os que crerem e forem batizados serão salvos. É feita alguma menção do Batismo infantil numa passagem ou na outra? Note-se a maneira de argumentar dessa gente, quando na verdade dizem: Os adultos devem ser instruídos e devem crer, antes de serem batizados; logo, as criancinhas não têm direito ao Batismo! Ainda que se atormentem quanto queiram, os nossos opositores não poderão tirar dessas passagens outro ensino senão este: Devemos pregar o Evangelho aos que são capazes de ouvi-lo, antes de batizá-los. É só disso que aí se trata. Portanto, é perverter as palavras do Senhor excluir do Batismo os pequeninos, à sombra dessa falsa interpretação.


Um exemplo demonstrativo da verdade, num alerta contra a generalização

E para que cada leitor possa como que tocar com o dedo ou apalpar a ignorância desses mestres, usarei um exemplo para mostrar em que se apoiam. Quando o apóstolo Paulo diz, “Se alguém não quer trabalhar, também não coma” (2 Tessalonicenses 3.10), se disso alguém concluir que as crianças não devem receber alimentação, não será digno de zombaria de todo o mundo? Por quê? Por isso: do que é dito de uma parte, tal Fulano estaria generalizando como se abrangesse a todos. Pois as pessoas às quais contesto não fazem menos que isso no assunto do qual estamos tratando. Porquanto o que se diz especificamente a respeito dos adultos elas reportam aos pequeninos, fazendo disso uma regra geral.

Resposta à citação do Batismo de Jesus

No tocante ao citado exemplo do Senhor, em nada os favorece. É certo que Ele não foi batizado antes dos seus trinta anos de idade, mas isso porque ia dar início à sua pregação e por ela desejou fundamentar o Batismo, que já tinha sido iniciado por João. Querendo instituir o Batismo com base em Sua própria doutrina, já no princípio do Seu ministério público, santificou-o primeiro em Seu próprio corpo, para dar-lhe maior autoridade.



Obs.: Calvino censurou os anabatistas por fundarem a sua recusa do batismo infantil na maneira pela qual é formulado o mandamento do Senhor em Mateus 28 e Marcos 16. Porque esse mandamento, diz ele, tem como elemento central a ordem de evangelizar o mundo pagão (é ordenada a missão), e é evidente que não se pode evangelizar senão pessoas capazes de compreender a mensagem e de crer no Evangelho. Nada mais natural, portanto, que os primeiros batizados tenham sido de adultos, e estes não seriam batizados senão depois de abraçarem a nova fé. A questão do Batismo só vem como item subseqüente; e Calvino entende que, uma vez batizados os pais convertidos, pode-se administrar o Batismo a seus filhos pequenos, como sinal da aliança da graça, da qual os pequeninos fazem parte (em virtude de textos que permitem clara dedução). O Batismo de crianças só extrai a sua eficácia da redenção evangélica, a qual lhes deve ser ensinada em seguida e ao longo de toda a sua educação cristã, até chegarem à idade em que possam exercer fé. Não se trata, pois, da questão de batizar outras crianças que não as de pais cristãos: O Batismo não é um meio de evangelização, mas um sinal presente na família e na igreja cristãs. Não admira, então, que nos mandamentos do Senhor registrados em Mateus 28 e em Marcos 16 o Batismo não figure em primeiro lugar, mas em segundo.






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